Moda não é Arte.
mas depende...
Eu sempre pensei em moda como uma forma de arte. Inclusive, muitas pessoas pensam dessa forma também. É fácil entender o porquê: designers se inspiram em obras, movimentos e artistas o tempo todo. Há roupas que parecem verdadeiras esculturas e desfiles que são frequentemente comparados a instalações de arte.



Até Leonardo da Vinci, um dos maiores nomes do Renascimento, desenhava figurinos e projetava vestimentas, como se a moda fosse apenas mais um dos muitos campos em que sua genialidade se expressava.
Por isso, me surpreendeu descobrir que existe, de fato, uma discussão sobre se moda é ou não é arte. Não chega a ser uma grande polêmica, mas há divergências entre quem vive nesse universo. O mais intrigante é o motivo: enquanto alguns defendem que a moda sempre foi uma manifestação artística; outros acreditam que ela passou a ser tratada como arte apenas para escapar do estigma de algo fútil ou superficial, ou seja, o único jeito de ser validada foi sendo tratada como arte.
A edição de hoje não é pra resolver a questão de a moda ser ou não ser arte (até porque, quem sou eu pra definir isso), mas pra mostrar os dois lados da moeda — e como os dois fazem muito sentido.
#1 Moda é Arte
Tanto a arte quanto a moda surgiram na Pré-História, há cerca de 40 a 45 mil anos, ainda em suas formas mais primitivas — pinturas rupestres, pequenas esculturas e vestimentas feitas de pele. Desde então, a moda e a arte caminham lado a lado, envolvidas em um diálogo criativo que atravessa o tempo — a ponto de, hoje, ser quase impossível determinar onde termina uma e começa a outra.
Durante o Renascimento, por exemplo, a representação das roupas na arte ganhou destaque. Basta olhar para as esculturas de Michelangelo: ele conseguia esculpir a leveza e a fluidez de um tecido em uma pedra de mármore, transformando algo rígido em movimento puro.


Séculos depois, pinturas que retratavam os trajes da corte francesa do século XVIII — como os vestidos de Madame de Pompadour ou da rainha Maria Antonieta — documentavam não apenas a moda, mas também as hierarquias sociais da época. E não eram apenas as pinturas que demandavam tempo e habilidade: alguns desses vestidos exigiam até 1.500 horas de trabalho artesanal, entre bordados, rendas e moulage, muitas vezes executados por equipes inteiras de costureiras e artesãos especializados, transformando cada peça em uma verdadeira obra de arte vestível.


Mais recentemente, marcas como Alexander McQueen, Iris van Herpen e Schiaparelli já transformaram desfiles em verdadeiras instalações artísticas, explorando formas, texturas e movimentos que ultrapassam a função da roupa e se aproximam da performance e da escultura. Museus renomados, como o Metropolitan Museum of Art em Nova York e o Victoria & Albert Museum em Londres, dedicam salas inteiras à moda, reconhecendo sua relevância estética e histórica.



A moda é vista como uma arte em movimento. Enquanto um quadro pode ser apreciado apenas de frente e uma escultura está sempre parada, a moda ganha vida no corpo. Ela depende do gesto, do caminhar, do modo como o tecido se move para que sua forma se complete.
Nesse sentido, vestir-se vira um ato criativo — uma forma de transformar a vida e o próprio corpo em obra de arte.
#2 Moda é Moda. Arte é Arte.
Miuccia Prada, Rei Kawakubo e Karl Lagerfeld são alguns dos maiores defensores da ideia “Moda é moda. Arte é arte.”
A questão não é se a moda é digna de ser considerada arte, mas sim se ela já não possui autonomia e riqueza suficientes para existir como uma categoria própria.
“Moda não é pouco. Não precisa ser considerada arte para ser importante.” Diferentemente de uma pintura ou uma escultura, cujo valor muitas vezes se mede pela sua capacidade de provocar reflexão ou transmitir emoção, a moda nasceu da necessidade e do cotidiano.
Roupas eram usadas como proteção contra o frio e os perigos do ambiente; depois, como ferramenta de distinção social, quando a nobreza começou a usar o vestuário para se diferenciar das classes emergentes. E, mais recentemente, como expressão cultural. Seu impacto não depende de ser rotulada como arte, mas de sua função prática e estética.



Não que uma roupa não possa despertar emoções ou provocar reações, mas a moda não vive da subjetividade da mesma forma que a arte. Ela não nasceu do impulso de expressar sentimentos internos ou visões pessoais. Seu valor está no contexto cultural e no impacto visual que exerce no cotidiano — embora, ao mesmo tempo, possa encantar e emocionar.
Ou seja, a moda consegue existir sem a arte. Da mesma forma, a arte existe sem a moda. Mas, quando se encontram, a combinação é infinitamente mais fascinante.






💌 É vergonhoso ter um namorado agora?
Esse foi o tema da Vogue britânica de outubro, e eu confesso que esperava muita discordância por se tratar de um assunto relativamente nichado. Mas fiquei surpresa ( e ri muito) com a quantidade de mulheres que concordaram e ainda compartilharam experiências pessoais.
A autora não afirma que ter um namorado seja realmente vergonhoso, mas explora por que muitas mulheres sentem isso e repensam os modelos tradicionais de relacionamento. É de conhecimento geral que, historicamente, as mulheres tendem a se doar mais nesses vínculos.
Vi também comentários dizendo que quando descobrem que uma diva está namorando, ela “perde um pouco da aura de diva”. Talvez isso reflita uma percepção histórica: por muito tempo, mulheres eram socialmente incentivadas a se diminuir dentro de relacionamentos, e, de certa forma, essa visão ainda persiste. Passamos a acreditar que a mulher está se diminuindo — e, ao mesmo tempo, acabamos por diminuir a admiração por ela também.
Enfim, concordando ou não, é uma leitura que vale a pena.
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Leia mais sobre o tema:
Is Fashion Art?
Um texto breve de Valerie Steele sobre a linha tênue entre moda e arte — e sobre se realmente precisamos classificar a moda como arte para que ela seja considerada significativa.
Is fashion a true art form?
A aclamada designer Zandra Rhodes e a diretora do Design Museum, Alice Rawsthorn, se enfrentam frente a frente.
As relações entre a moda e a arte
Defende a moda como a “arte do movimento” e explica sua relação com a pintura e a arquitetura.
Até o próximo domingo :)






Excelente reflexão, existe a moda e existe a arte e também existe as duas juntas, que costuma entregar resultados maravilhosos.
Dito isso, acredito que moda é moda e arte é arte